A Fernanda tem a infância mais rosa do mundo. Por uma combinação de fatores, ela tem o que toda a criança merece, em termos de carinho, atenção, necessidades atendidas e sorte. Sim, sorte, porque oportunidade percebida e aproveitada também depende de sorte. Por mais pró-ativos que eu e o Lê sejamos, muito do que aconteceu até agora depende do acaso (para exemplificar sem fazer uma lista muito grande, desde o fato de eu ter conhecido o Lê, até ter engravidado no tempo que aconteceu e a Fernanda ter a saúde que tem, nada disso passou por competência ou habilidade. Foi sorte mesmo. E eu nem citei as várias pessoas maravilhosas que estão na nossa vida e que tornam a experiência da maternidade "só alegrias"). Enfim, tudo isso pra dizer que até o momento, a Fernanda não teve nenhuma situação desfavorável, por mais simples que fosse.
Pois na terça-feira ela perdeu a boneca que era a sua atual favorita. Numa saída rápida para a reunião dos pais da aula de música, a Fefelita, com muito sono, pediu para ir embora com insistência, e no caminho até o carro deixou a Amarela cair na calçada. O Lê voltou em dois minutos pra buscar, mas já tinha desaparecido. Quando eu cheguei em casa ela já estava dormindo. O Lê me contou e eu fiquei chateada, porque a boneca era da Letícia e nós tínhamos a intenção de devolver mais tarde, quando a Fefê já estivesse maiorzinha e entendesse que a boneca era da Leti e estava na hora dela "voltar para a casa". Mas a questão mais imediata era ver como ela iria lidar com a ausência da Amarela.
Acordou no outro dia dizendo "mãe". Cheguei no quarto, disse bom dia e ouvi: "Malela?" "A Amarela não tá mais aqui Fefê, a gente perdeu, quer o teu mamá?" Assim eu mudei de assunto e dei a mamadeira. Mais tarde a Renata chegou e quando eu vi, ela já estava no quarto procurando a Amarela com a Fefê. Expliquei o que tinha acontecido e disse para ela evitar o assunto e só responder para a Fefelita "não tem mais" quando ela perguntasse. Assim passamos os últimos cinco dias. A Felita não chorou, não reclamou nenhuma vez, às vezes lembra e pergunta, cada vez com menos frequência.
Sim, é uma bobagem, mas eu fiquei feliz com a reação da Fernanda. Eu aprendi mais tarde que, por mais que eu gostasse de alguma coisa, coisas não são pessoas, e a minha felicidade não depende de nada que não sejam pessoas. A Fefê talvez já esteja aprendendo isso.
Agora só falta negociar com a Leti a devolução de uma outra Amarela.
* Vocês já sabem o que essas fotos têm em comum, além da Fefelita Compridita.


Um comentário:
que lindo o teu post ou texto ou sei lá como isso se chama...
beijo, Luti.
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